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O Leão Acordou – Uma pintura de Souther Salazar

05/10/2011
The Lion is Awake

Souther Salazar é um artista americano que faz parte da galeria Jonathan LeVine, e foi através dela que o conheci. Em 2008 ele estava entre os artistas que fizeram uma exposição coletiva aqui no Brasil na galeria Choque Cultural. Me apaixonei pelo seu trabalho que mescla colagem, desenho e pintura, com a maneira quase infantil de apresentar seu mundo. Algo da técnica aparentemente simples e tosca me remeteu mais ao trabalho produzido no Brasil do que seus conterrâneos, e dessa forma me identifiquei mais facilmente com ele. Recentemente encontrei na internet o blog de Souther no qual, entre outras coisas, ele apresenta uma leitura de algumas pinturas suas. Traduzi um desses posts para o português no qual ele descreve as idéias, memórias e processos por trás de uma de suas pinturas, The Lion is Awake de 2011. Segue:

Eu tentei descrever os mundos em minhas pinturas como lugares aonde muitas histórias podem existir… aonde as memórias, a imaginação e o subconsciente podem todos se juntar. Essa pintura é um bom exemplo de como isso funciona para mim.

No nível mais básico, ela é sobre a nossa viagem para Lucerne na Suiça no ano passado, onde eu tive uma exposição no festival Fumetto. O grande e rodopiante lago que atravessa o centro da cidade, cheio de cisnes, e a velha ponte e torre que o cortam ao meio. Os guindastes e obras. As construções de conto-de-fada com mastros e bandeiras decorativas.

Nos primeiros dias nós ficamos em um apartamento com uma pequena mesa e uma fileira de tulipas do lado de fora. Depois nós migramos para um quarto no sexto andar do hotel ao lado, aonde eu podia olhar pela janela os Alpes cobertos de neve e o grandioso hotel em forma de castelo em uma colina.

Nós aproveitamos a vida de turista, alimentando os pássaros, tirando fotos do ninho de cisnes e fazendo compras na feira dos agricultores, fazendo um passeio de barco pelo lago. Nós fizemos uma pequena viagem a Bern e vimos um velho urso escalando uma árvore morta.

Existe um famoso monumento de um leão agonizante em Lucerne. Você possivelmente já o viu, pois ele geralmente aparece na forma de apoio de estante. A minha mãe tem um em sua estante de livros. O verdadeiro é esculpido na face de uma pedreira de arenito. Ele foi feito para lembrar o massacre dos guardas suíços durante a Revolução Francesa. Não tivemos a oportunidade de ver a escultura. Havia muito trabalho a ser feito para a exposição…

…(algumas peças da instalação podem ser vistas através da janela no lado esquerdo da pintura), e depois de alguns dias de sol, nuvens de chuva começaram a aparecer e tivemos que ficar dentro da cidade e de casa. Mas o monumento foi mencionado tantas vezes que o leão parecia estar lá, como se ele fizesse parte da nossa viagem.

Enquanto trabalhava nessa pintura eu encontrei uma pequena escultura em cerâmica de leão numa loja de antiguidades. Eu adorei como sua juba era feita de telhas de barro e a sua expressão serena, esculpida profundamente. Ela estava na minha mesa enquanto eu desenhava isto, e acabou substituindo a colina sobre a qual o castelo repousava. Na pintura ele acordou, e pode me ver olhando para o mundo.

Porque eu estava pensando em leões, a minha mente viajou ao personagem Sam the Lion, interpretado por Ben Johnson no filme “The Last Picture Show”. Eu sempre amei o monólogo de Sam sobre o tempo passando e as coisas mudando. Ele me transporta ao mesmo lugar que pintar um quadro me leva, por eu estar sentado lá, processando todas essas memórias. Então encontrei um lugar onde ele poderia sentar nessa pintura também.


Na cabeça de Sam tem uma joaninha. Por algum motivo havia vários souvenirs com tema de joaninha e chocolates em formato de joaninha nas vitrines de Lucerne. E enquanto eu pintava esta tela aconteceu uma invasão em massa de joaninhas no meu atelier. Joaninhas andavam pelas pinturas e escalavam as esculturas. Parecia que elas queriam estar nos trabalhos então eu pintei e esculpi algumas delas.

Estar na Suíça me lembrou de quando eu tinha onze anos e fui à Europa com a minha família pela primeira vez. A minha mãe tinha a mesma idade que tenho agora, carregando nós quatro numa van. Incluí uma pequena versão dessa memória no canto esquerdo da pintura, com as crianças causando no carro e deixando a minha mãe louca. (de alguma forma a van se transformou em uma espécie de ônibus/limousine no processo).

E no canto extremo esquerdo, outro portal. Um caminho para fora, ou dentro, deste mundo.

Um Comentário leave one →
  1. 06/10/2011 21:15

    amei esse cara!

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